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Ecstasy e Honestidade

Uma sociedade baseada numa consciência semelhante ao ecstasy [E-like consciousness] seria uma sociedade honesta de pessoas honestas.

Hoje, a maioria de nós mente e dissimula. Nós contamos mentiras brancas e, de acordo com a ocasião, mentiras deslavadas [total whoppers]. A maioria de nós mente várias vezes no decorrer do dia seja para amigos, familiares, colegas ou – conforme a necessidade ou a conveniência dita – para desconhecidos completos. Esconder de alguém os pensamentos e sentimentos verdadeiros conforme a ocasião exige é uma segunda natureza para darwinianos aparentemente civilizados. Os poucos estudos realizados acerca do predomínio da mentira na vida cotidiana sugerem que tendemos a subestimar o quão frequentemente (quase) todos nós somos culpados de mentiras deslavadas, sem mencionar inúmeras meias-verdades e evasões.

Em uma escala mais ampla, a enganação é institucionalizada na vida política. O registro da história humana até agora apóia a poderosa intuição de que a enganação irá persistir indefinidamente na vida pública e privada. Visto que a capacidade evoluída de mentir e enganar de formas cada vez mais sofisticadas tem sido geneticamente adaptativa. De fato, se a controversa hipótese do símio maquiavélico estiver correta, então uma capacidade progressiva e refinada para mentir e enganar – e, inversamente, uma capacidade aperfeiçoada para detectar mentiras e enganos nos outros – pode ter levado à evolução da inteligência humana.

Costuma-se dizer que a vida seria melhor se nós fôssemos honestos uns com os outros. Mais frequentemente, esse juízo de valor é simplesmente assumido. A vida poderia ser melhor, também, se fôssemos mais honestos com nós mesmos. Mas dado o genoma corrupto de hoje, todos esses cenários são impossivelmente irrealistas. Além disso, os efeitos da abertura pública de sentimentos privados frequentemente seriam catastróficos. Isso se dá porque os humanos darwinianos entretêm tantos pensamentos negativos acerca dos outros, que a sinceridade completa destruiria a maioria das relações humanas contemporâneas. Em um cruel mundo darwiniano uma pessoa não-Ecstática [E-less] poderia achar, por exemplo, outra pessoa tediosa e feia. No entanto, geralmente não há nenhuma vantagem para qualquer uma das partes em dizer isso. Assim, as civilidades são preservadas (às vezes).

Nem toda a mentira serve aos próprios interesses. Muitas vezes, mentimos para poupar os sentimentos dos outros, assim como os nossos.

A respeito do MDMA/Ecstasy, no entanto, os indivíduos tendem a se tornar extremamente honestos. As pessoas confiam umas nas outras: o MDMA provoca, indiretamente, a liberação de oxitocina. Criticamente, a honestidade emocional induzida pelo MDMA é acompanhada por uma sutil, mas profunda mudança na percepção: quando “alterados” [“loved up”] pelo MDMA, todos tendemos a parecer fascinantes e belos, tanto para os outros quanto para nós mesmos. Pelo MDMA, parece natural expressar esses sentimentos de forma espontânea e demonstrativa também.

Infelizmente, este maravilhoso estado de ser não dura mais do que algumas horas. Potencialmente, os benefícios do MDMA e da terapia assistida (de MDMA) podem ser muito mais duradouros. Mas a experiência de pico do bem-estar empático que desnuda a alma [soul-baring empathetic bliss] desaparece logo. Examinando o futuro, no entanto, os aprimoramentos de consciências semelhantes ao ecstasy podem, em princípio, ser prolongadas indefinidamente. Ao optar por uma geneterapia para conectar uma neurobiologia da consciência semelhante ao ecstasy em nossos filhos, poderíamos até mesmo bloquear esta mudança perceptiva e comportamental para o bem. Se implementado a toda a espécie, um conjunto de filtros perceptivos aprimorados semelhantes ao Ecstasy faria o amor celestial de um pelo outro ser tão natural quanto respirar.

Essa visão pós-milenar é implausível. Neste momento, a noção de consciência global semelhante ao Ecstasy parece fantástica, especialmente para alguém que não está alterado [loved up] pelo MDMA. No entanto, a capacidade de amar a todos, e em formas extremas, apaixonar-se por todos, será uma possibilidade técnica, se não sociológica na era da biotecnologia amadurecida. No futuro, se algum dia optarmos – farmacologicamente ou geneticamente – em implementar a consciência semelhante ao ecstasy como uma das facetas da saúde mental do mundo inteiro, então poderia ser psicologicamente seguro ser totalmente honesto. Nesse ínterim, salvo tal enriquecimento de nossas mentes perturbadas, às vezes é mais seguro mentir descaradamente. Assim, o atual usuário de MDMA provavelmente está bem aconselhado a tomar uma decisão consciente antes de consumir ecstasy [E], e não expor nada que ele ou ela não gostaria que fosse conhecido num estado não-Ecstático [E-less state]. A discrição sob o efeito do ecstasy pode ser mantida; alguém pode ficar calado com segurança sob o efeito de ecstasy com um bom grau de premeditação.

Contudo, a discrição é prudente não porque uma explosão de sentimentos catalisada pelo Ecstasy [E-catalysed outpouring] do coração e da alma é por si só patológica. A reserva seletiva acerca (de alguns) dos seus sentimentos mais íntimos é sensata simplesmente porque as repercussões da honestidade no mundo não-Ecstático, para o qual o usuário deve retornar, podem ser cruéis; e porque os sentimentos elevados sentidos enquanto alterado pelo ecstasy [E] muitas vezes não podem ser sustentados na luz fria do dia.

Naturalmente, a perspectiva da sinceridade mundial num estado semelhante ao ecstasy parece grotesca ao olhar darwiniano – não menos do que a perspectiva de todos amarmos uns aos outros. Mais especificamente, a opção de se tornar permanentemente alterado empaticamente [loved-up] encoraja a acusação de que a percepção em estado semelhante ao ecstasy é sistematicamente distorcida. Uma sociedade fictícia de consumidores de ecstasy alterados empaticamente [loved-up E-heads] pode ser alegada, e estaria sob o domínio de uma psicose coletiva. Sem dúvida, segue-se a crítica cínica de que alterados Ecstáticos inebriados pelo MDMA poderiam achar todos belos e fascinantes. Mas e daí? Apesar do MDMA não ser um “alucinógeno” ou psicodélico clássico, a percepção de encanto induzida que o MDMA cria é (muitas vezes) falsa. Visto que muitas pessoas realmente são entediantes e feias. Um mundo encantando perpetuamente pelo ecstasy seria um paraíso de tolos povoado por discernimentos intelectualmente e esteticamente simplórios. Em um mundo num estado semelhante ao ecstasy [In an E-like world] realmente poderíamos ser abertos e honestos; mas não teríamos nada que valesse a pena esconder.

Este julgamento desdenhoso não procede. Se ser entediante ou feio fossem propriedades intrínsecas de (alguns dos) nossos companheiros humanos, ao invés de nossas respostas emocionais às (deturpações) das mentes darwinianas, então a acusação de falsa consciência, por assim dizer, poderia ser mais fácil de sustentar. Mas não há nenhuma evidência de que isto seja assim. Nossas experiências perceptivas foram moldadas pela seleção natural, não para ser verídicas, mas para ajudar os nossos genes a deixar mais cópias de si mesmos. Às vezes essa (falta de) veracidade aumenta o fitness; e às vezes não; e, às vezes – como se pode argumentar que é o caso na esfera das atitudes que expressam juízos de valor puro – não há base de inferência de qualquer forma. Em todo o caso, sob o regime primordial darwiniano da seleção natural, tem havido uma grande vantagem em se observar os rivais genéticos, e, certamente, observar alguém com quem não se é geneticamente idêntico, sob uma luz cruelmente negativa (algumas vezes). Por outro lado, se isso tivesse ajudado os nossos genes a deixar mais cópias de si mesmos, logo os homens normalmente achariam mulheres de, digamos, 80 anos mais sexys e fascinantes do que mulheres com 21; e essa percepção não seria nem mais nem menos “correta” do que a estética da realidade consensual de hoje.

Analogamente, o místico arrebatado que consegue “ver um mundo num grão de areia, E um céu numa flor silvestre” não está iludido; essas percepções são incomuns atualmente, apenas porque foram geneticamente mal adaptadas para ocupar os estados de alegria místicos sustentados. No ambiente ancestral de adaptação, era tipicamente mais adaptável ver os grãos de areia como entediantes e negligenciá-los. Mas os mundos (virtuais) paroquiais de hoje em dia são apenas um pequeno conjunto de criações dependente da mente num vasto estado de espaço de possibilidades, não uma característica intempestiva da condição humana. Tentadoramente, graças à biotecnologia, uma vasta gama de opções enriquecedoras à vida [life-enriching] logo será oferecida como alternativa.

Um cético cabeça-dura poderia responder: sim, a beleza está nos olhos de quem vê, mas nem toda a percepção social é relativa. Algumas pessoas realmente são desagradáveis e mal-humoradas por (quase) qualquer critério. E vê-las como qualquer outra coisa seria ilusório. Admitido isso, ver uns aos outros sob uma luz muitas vezes invejosa, pode ser um produto de nossas pequenas mentes darwinianas desagradáveis, mas certamente este é o ponto: geralmente nós não somos muito amáveis. Se quisermos ser honestos, então deveríamos admitir o seguinte: não abrirmo-nos efusivamente uns aos outros como hippies drogados.

Nisso reside a beleza do MDMA – e, talvez, de drogas do amor mais seguras e sexys e geneterapias mais distantes na linha do tempo. O MDMA não apenas nos torna honestos. A consciência semelhante ao ecstasy nos torna mais amáveis. Mesmo melhor, o ego idealizado ativado pelo MDMA não assume a forma de um alienígena impostor, por assim dizer, mas se sente completamente autêntico, construído a partir de elementos de uma persona idealizada que não podemos manter em uma vida sem drogas. Se, em uma sociedade baseada no ecstasy, todos fossem constitucionalmente mais amáveis, então enriquecer a nossa arquitetura cognitiva implicaria a captura dessa amabilidade [sweet-naturedness] em nossas percepções interpessoais. Com a consciência semelhante ao ecstasy, honestidade emocional e integridade intelectual podem, em princípio, andar de mãos dadas. É possível, mas improvável, que as representações desagradáveis de nós mesmos e dos outros pertencem a um mundo darwiniano sombrio que em breve deixaremos para trás.

Esta perspectiva mais uma vez atrai o ceticismo. Pode-se argumentar que alterar geneticamente uma população inteira estimulada à honestidade indiscriminada não é um resultado evolutivamente estável. Uma população infalivelmente honesta pode parecer propensa à invasão genética de “desertores” mutantes, quase sociopatas. Este argumento da teoria de jogos pode ser sustentado no futuro, assim como tem sido no passado. Mesmo com a biotecnologia avançada, seguindo essa linha de argumentação, talvez apenas o bem-estar substancialmente egoísta fosse viável em qualquer modelo biologicamente realista de uma sociedade global superfeliz.

Mas mais uma vez, esta resposta demasiado rápida negligencia de que modo pensamentos ostensivamente altruístas e comportamentos evoluíram em primeira instância, i.e., por razões (geneticamente) egoístas; e como eles possivelmente vão se proliferar de forma explosiva na nova era reprodutiva de bebês projetados. A proliferação dessas características admiráveis acelerará não porque nossos genes deixarão de ser menos egoístas, no sentido técnico. Visto que genes não-egoístas são impossíveis. Em vez disso, uma nobreza (similar ao ecstasy?) de caráter pode florescer na era iminente da chamada seleção não-natural, porque quando a seleção já não for “cega” ou [efetivamente] aleatória, a recompensa genética [egoísta] por promover esses traços “altruístas” poderá ser maior. Na nova era reprodutiva à frente, quando genes/combinações alélicas forem escolhidas por agentes (parcialmente) racionais, em antecipação as suas prováveis conseqüências comportamentais, os pais exibirão plausivelmente uma forte preferência por filhos com genótipos que promovam essas características (parcialmente) hereditárias, assim como a honestidade e a “amabilidade” [“lovability”]. Esses traços mais agradáveis poderiam florescer à custa de alelos que predispõem a uma disposição mais desagradável. Afinal, quem gostaria de dedicar sua vida a criar filhos desagradáveis?

Infelizmente, não existem atalhos. Qualquer transição para uma sociedade pós-darwiniana verdadeiramente honesta não pode ocorrer apenas através de ações de iniciativa individual ou raves que duram a noite toda. Tampouco pode sobrevir por meio de projetos de reforma puramente sociais que deixam nossas mentes com “dano cerebral emocional” incuradas [emotionally brain-damaged minds]. A engenharia do paraíso certamente não vai acontecer apenas através de atos particulares de consumo de drogas – mesmo depois que análogos de MDMA seguros e sustentáveis forem sintetizados e, talvez, distribuídos globalmente via Internet.

Desnecessário dizer que não sabemos se os nossos descendentes geneticamente aprimorados irão ter filtros perceptivos semelhantes ao ecstasy em suas consciências. Não sabemos se a posteridade mentirá e enganará tanto quanto nós. Nós nem sequer sabemos se eles vão ser fundamentalmente felizes, ou assumindo que eles serão de fato congenitamente abençoados assim, se o seu bem-estar terá um aspecto egocêntrico ou empático, ou que vão expressar formas de florescer [modes of flourishing] inimaginavelmente diferentes de tudo o que é acessível à mente consciente hoje em dia. Então, talvez os tentadores cenários para os nossos descendentes transumanos afirmados aqui, sejam apenas desejos disfarçados como futurologia. Mas seja qual for o futuro, ao utilizar o MDMA, já podemos acessar rapidamente estados de consciência mais ricos do que a nossa mentalidade darwiniana brutal normalmente nos permite. Uma sociedade fundamentalmente honesta, prefigurada (talvez) num amor comunal de MDMA, não é auto-evidentemente eticamente inferior a uma sociedade fundada em mentiras intermináveis e enganos – ou orientada por exibições competitivas dos consumidores. Assim, pelo menos, como um exercício intelectual, vale a pena investigar a opção política de bloqueio nos substratos bioquímicos de honestidade semelhante ao ecstasy para o bem.

Original Title: Ecstasy e Honestidade
Author: David Pearce (2004)
Translation by: Gabriel Garmendia da Trindade (2010) see too 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 & 8.
Revisão técnica por: Jonatas Müller (2010)


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